ERNANI REICHMANN

03-09-1920 – Passo Fundo (RS)
06-06-1984 – Curitiba (PR)

Leandro Laube

Contrário a Deleuze — que considerava medíocre —, grande admirador de Kierkegaard e crente em um Deus — que ele preferia escrever com maiúscula — acima da mediocridade humana e transcendente, não raro escrevia com uma simplicidade desconcertante sobre sentimentos muitas vezes não tão simples.

Apesar de graduado em Economia e Direito, Reichmann, que se tornou filósofo autodidata por vocação, preferiu trabalhar uma obra que amalgamou, de forma bastante consistente e profunda, textos ficcionais, confessionais e muita reflexão filosófica. Provavelmente por conta dessa fusão de linhas — um tanto indigesta às mentes conservadoras — tenha sido tão pouco valorizado. Mesmo assim, em sua vasta bibliografia — de quase cinqüenta volumes publicados —, deixou um legado inquietante que nos leva a percorrer os labirintos do pensamento humano em dúvidas e indagações as mais diversas, tendo guiado tanto sua vida quando sua obra pela busca da essência humana.

Homem avesso à celebridade, preferia desenvolver seus trabalhos de forma discreta e pessoal. Nos títulos publicados — todos em modestas encadernações —, é patente a sinceridade com que trata seus estudos, pois, não raro, encontra-se um honesto "não sei", diante de alguma de suas próprias dúvidas. Um dos raríssimos autores a admitirem-se indispostos, cansados e até dominados pela preguiça. No "Cadernos PS I" (1981, p. 308), Reichmann deixa transparecer uma certa inquietude, ao perguntar-se:

Pode um homem aos sessenta anos [...] continuar esperando aquela coisa grande, extraordinária, que há de mudar o curso de sua vida, dando-lhe um verdadeiro destino? E se esse homem não fez mais do que esperar por essa coisa? Esta coisa teve lugar ou não teve? Se teve, ele a terá descoberto [...] ou não a terá descoberto? Se descobriu, que importância terá para ele? Se não descobriu, que peso continua a exercer em seu si-mesmo? Pode-se continuar esperando o que aconteceu só porque aconteceu de uma maneira diversa da que se esperava? O imperceptível não tem mais força (no tempo) do que o espetacular?

É preciso ser muito honesto, antes de mais nada consigo mesmo e com seus próprios ideais, para poder assumir — expressamente, nas publicações, inclusive — as próprias limitações, mesmo que circunstanciais.

Considerava seu trabalho, o conhecimento e a própria vida, uma experiência em curso que o levaria sempre adiante na busca. Uma experiência, talvez pelas experimentações do raciocínio, testes das possibilidades (como na ocasião em que mudou-se para um sítio nos arredores de Curitiba, onde residiu por um ano na busca do Simples — o verdadeiro Simples, naturalmente portador da simplicidade da vida —, que concluiu inalcançável, pela impossibilidade da volta a um estado anterior de inocência, após ter-se deixado de ser).

Foi professor da Universidade Federal do Paraná (UFPr) de 1952 a 1962, quando se afastou da função para exercer o cargo de Secretário-Executivo do Conselho de Desenvolvimento do Extremo Sul (CODESUL). Em 1964 passou a atuar como Coordenador Geral do órgão, até 1973. Retornou, então, à UFPr, onde trabalhou até aposentar-se, em 1982. Faleceu dois anos depois.


BIBLIOGRAFIA

Obs.: Para o presente levantamento bibliográfico, a data entre parênteses indica a conclusão da obra e o ano logo a seguir (fora dos parênteses) corresponde à publicação. Quando não houver menção a uma ou outra data, esta é desconhecida.

Obras Publicadas

Como publicadas pelo autor:

Firmino e Elvira. Curitiba, pelo Autor, 1953.
Ernesto, o Progresso e o Nada. Curitiba, pelo autor, 1953.
O Padre Miguel. Curitiba, pelo autor, 1953.
Jules. Curitiba, pelo autor, 1954.
O Casamento de Genoveva. Curitiba, pelo autor, 1954.
Pierino. Curitiba, pelo autor, 1954.
O Cantar de Pedro. Curitiba, pelo o autor, (1955).
Cadernos van der Lubbe - 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 7º volumes [1]. Curitiba, pelo autor, (1947/ 1955).
Kierkegaardiana - Diário de Kierkegaard. Curitiba, pelo autor, 1955. [2]
A Empresa. Curitiba, pelo autor, 1956.
Cadernos do Homem: 1º Ensaio da Existência. Curitiba, pelo autor, 1960.
Intermezzo Lírico-Filosófico - 2ª parte. Curitiba, pelo autor, (1957/ 1961) 1961.
Intermezzo Lírico-Filosófico - 1ª parte. Curitiba, pelo autor, (1956/ 1959) 1962. [3]
Kierkegaardiana - Unidade e Dispersão de Kierkegaard. Curitiba, pelo autor, (1955) 1963. [4]
Kierkegaardiana - A Desumanização de Kierkegaard. Curitiba, pelo autor, (1955) 1963. [5]
Intermezzo Lírico-Filosófico - 7ª parte [6], Curitiba, pelo autor, 1963.
Volta às Origens. Curitiba, Edições ER [7], (1964/ 1967) 1967.[8]
Octavio de Faria. Curitiba, Edições ER, 1970.
As Lanternas - Apêndice de "A Noite do Absoluto". Curitiba, Edições JR, (1970) 1971.
Intermezzo Lírico-Filosófico - 3º volume. Curitiba, edições JR [9], (1956/ 1961) 1971.
Intermezzo Lírico-Filosófico - 9º volume, 2ª parte. Curitiba, pelo autor, 1971.
Kierkegaard (Textos Selecionados). Editora da Universidade do Paraná, (1972) 1972.
À Soleira da Poética de Carlos Nejar. Curitiba, pelo autor, (1973) 1973.
Longe no Horizonte, um Homem - 7ª série. Curitiba, pelo autor, (1973/ 1974) 1975.
Cadernos Passionários I - II - III. Curitiba, pelo autor, 1975.
Cadernos Passionários IV e V. Curitiba, pelo autor, (1975/76) 1976.
A Espiral e o Círculo - 8ª série. Curitiba, pelo autor, (1974/ 1975) 1976.
Cadernos Passionários VI e VII. Curitiba, pelo autor, (1976) 1977.
A Mula e o Mágico c/ Face Perdida de Ivan Rebal - 6ª série. Curitiba, pelo autor, (1971/ 1973) 1977.
A Noite do Absoluto - 5ª série. Curitiba, pelo autor, (1969/ 1971) 1978.
O Trágico de Octavio de Faria. Curitiba, Editora da Universidade do Paraná, (1978) 1978. [10]
O Único e o Agreste - 1º volume, 10ª série. Curitiba, pelo autor, (1978) 1979.
O Único e o Agreste - 2º volume, 10ª série [11]. Curitiba, pelo autor, (1978/ 1979) 1979.
Cartas e Sueltos para Ernani Reichmann. Curitiba, pelo autor (org.), (1980) 1980.
Ilustração Imprópria, Terminal - 12ª série. Curitiba, pelo autor, (1979) 1980. [12]
Cadernos ECR I. Curitiba, do autor, (1977) 1981.
Cadernos ECR II. Curitiba, pelo autor, (1978/79) 1981.
Cadernos ECR III. Curitiba, pelo autor, (1979) 1981.
Cadernos ECR IV - V e VI. Curitiba, pelo autor, (1979/81) 1981.
O Instante (Textos e Notas). Curitiba, Editora da Universidade Federal do Paraná, (1981) 1981.
Inéditos de Angústia Subjugada, Intermezzo Lírico-Filosófico e Volta às Origens. Curitiba, pelo autor, (1943/1965) 1981.
Cadernos ps I [13]. Curitiba, pelo autor, (1981) 1981.
Cadernos ps II. Curitiba, pelo autor, (1982) 1982.
Ser e Sismar I. Curitiba, pelo autor, (1983) 1983.
Ser e Sismar II. Curitiba, pelo autor, (1984) 1984.
Ser e Sismar VIII - IX. Curitiba, pelo autor, (1984) 1984.[14]
Ser e Sismar III. Curitiba, Editora Lítero-Técnica (1984) 1989.
Ser e Sismar IV - V. Curitiba, Scientia et Labor - Editora da Universidade Federal do Paraná, (1984) 1989.

Como as séries foram reorganizadas pelo autor [15], a partir de 1979:

1ª série: Angústia Subjugada [16](em dois volumes).
2ª série: Intermezzo Lírico-Filosófico [17](em três volumes).
3ª série: Volta às Origens.
Suplemento: Inéditos de Angústia Subjugada, de Intermezzo Lírico-Filosófico e de Volta às Origens.[18]
4ª série: A Noite do Absoluto (em dois volumes).
5ª série: A Mula e o Mágico (em dois volumes).
6ª série: Longe no Horizonte, um Homem.
7ª série: A Espiral e o Círculo.
8ª série: Projeto de Salvação (em três volumes).[19]
9ª série: Cadernos Passionários (em três volumes).
10ª série: O Único e o Agreste (em dois volumes).
11ª série: Cadernos ECR (em quatro volumes).
12ª série: Ilustração Imprópria, Terminal.

Os demais títulos foram mantidos separados das séries.

Obras Inéditas

Projeto de Salvação [20]. (1971/ 1977).
Cadernos ps III. (1982/ 1983).
Ser e Sismar VI. (1984).
Ser e Sismar VII. (1984).
A Passagem I. (1984).
A Passagem II. (1984) - Incompleta, pela morte do autor.

Obrigado à Brunilda Tempel Reichmann, pelo material fornecido e pelos 24 volumes cedidos.


CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

Muito já me perguntei se a Filosofia — refiro-me à verdadeira Filosofia, aquela que promove o desenvolvimento do homem como tal e o instiga à busca do conhecimento e de si mesmo; não àquela filosofia sáfara, de discurso meramente acadêmico e onanista — estaria morta em nosso tempo. Cheguei a duvidar da possibilidade de algum pensador ousar romper as amarras do comodismo e da vaidade a que se entregaram a maioria dos filósofos, que preferem limitar seus trabalhos a ruminações das mesmas idéias, dos mesmos autores e sob os mesmos prismas, visando mais agradar às opiniões do discurso oficial — é... a filosofia também tem seu discurso oficial... — do que realmente promover alguma ciência.

Muito me decepcionou constatar a resignação com que se pronuncia aquele discurso puído de que tudo já foi trabalhado, escrito ou pensado. No meu entender — mero mortal ignorante —, nada mais absurdo! Ao aceitar tal concepção, teria eu que concordar com que nada mais haja a ser descoberto ou concebido. Teria, então, de aceitar um limite para a imaginação e o pensamento, o que equivale a admitir o fim da jornada, quando obviamente ainda há muito mais a ser descoberto acerca de praticamente tudo à nossa volta. Se o homem não sabe nem ao certo o que está fazendo nesta pedrinha perdida no cosmos, se não conhece esse cosmos e se não há sequer uma certeza concreta sobre o funcionamento de sua própria mente, como se pode afirmar que tudo já foi dito ou pensado?

Contudo, certo dia, em meados do ano de 2002, minha esposa chega em casa com um calhamaço de folhas datilografadas que seriam digitadas, a pedido da filha de um certo escritor. Ao colaborar com o trabalho de digitação do material, acabei por deparar com um pensador romântico ("romântico escarrado", como era rotulado, embora detestasse), idealista (sempre preferiu este título) e buscador de sua própria essência. Estava aí a prova de que a Filosofia ainda poderia ser feita com arte, paixão e busca da ciência, não só com meras transcrições estéreis.

Dispensável comentar o deleite com que degustei longamente as linhas sutis — por vezes sinuosas — e ricas em sentimento, escritas por esse que viria a ser portador de minha admiração.


NOTAS

[1] O 6ª volume, O Drama de Luciano, foi publicado em Inéditos da Angústia Subjugada, do Intermezzo Lírico-Filosófico e de Volta às Origens, em 1981.

[2] Tradução do diário de Kierkegaard, de 1834, realizada juntamente com O. Hecke e J. Bomskow.

[3] A 2ª parte do Intermezzo Lírico-Filosófico foi lançada antes da 1ª parte.

[4] Publicado no Intermezzo Lírico-Filosófico - 7ª  parte.

[5] Ídem

[6] Não encontrada qualquer referência às partes 3ª a 6ª.

[7] Editora do próprio autor, que leva suas iniciais.

[8] Reichmann modifica os grupos em séries. Classifica Angústia Subjugada como 1ª série, incluindo os títulos anteriores aos Intermezzos e estes passam a integrar a 2ª parte (cf. Ser e Sismar IV/V, p. 287, nota ****).

[9] Editora do próprio autor

[10] Comemorativo aos 70º aniversário de Octavio de Faria (15/10/1978).

[11] Na p. 495 deste 2º volume, encontra-se a nova ordenação para os escritos de Reichmann, com a 4ª série sendo excluída e a 5ª ocupando o lugar desta, a 6ª no lugar da 5ª e assim por diante. Isto explica o porquê de duas 10ª séries.

[12] Coletânea de cartas escritas por Clementino Schiavon Puppi, entre 17/07/1942 e 17/08/1964. Organizada e editada por Reichmann, trata-se de uma homenagem ao amigo, a quem considerava "o melhor exemplo brasileiro do pensador subjetivo de Kierkegaard" (p. 3). O título refere-se às cartas terem Reichmann como destinatário e não como objeto de discurso, o que, por certo, seria inadmissível do ponto de vista do próprio Reichmann.

[13] "Pelos Serianos" (os serianos, grupo de pensadores de Passo Fundo-RS).

[14] Publicado antes do Ser e Sismar III.

[15] Cf. Ser e Sismar IV/V, p. 287.

[16] Agora reeditado em dois volumes. Hic Fuit passa a fazer parte do 1º volume e Cadernos van der Lubbe integra o 2º volume. O Cadernos Dissonanz de van Neutgen, que havia sido publicado no Hic Fuit, agora está nesse 2º volume.

[17] Os dois primeiros volumes (antiga 2ª parte do 9º volume e antiga 7ª parte) foram reeditados e o 3º volume permaneceu inalterado.

[18] Sem reedição. Considerado como um anexo ao Volta às Origens.

[19] Obra ainda inédita.

[20] Em três volumes, muito embora Reichmann considerasse sua obra toda como um "projeto de salvação" (O Trágico de Octavio de Faria, p. 324)
 
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