A VIOLÊNCIA ESCOLAR E URBANA

Leandro Laube

Vive-se uma situação em que hordas de "bárbaros" são, cada vez mais, empurradas para as bordas do mundo, como que por uma centrifugação patrocinada pelos "civilizados". Como a miséria não possibilita a aquisição de instrumentos que propiciem a resistência às forças de expulsão, caberia aos primeiros apenas esperar o momento de caírem do mundo. Isto, no pensamento da parcela da sociedade que se furta à preocupação com o quadro atual de desmoronamento das relações – em nosso caso, os "civilizados", que se consideram imunes às conseqüências.
Contudo, há uma guerra não declarada, em que os habitantes das bordas vêem-se tolhidos de perspectivas de reação com as mesmas armas daqueles que os empurram, criando, assim, novos meios de lutar por espaços. E é nesse contexto de busca por formas de autopreservação que a sociedade, como um todo, acaba mergulhando na espiral de declínio que podemos acompanhar rotineiramente.
É justamente nessa luta encarniçada pela própria sobrevivência, que as intolerâncias exacerbam-se, levando os indivíduos a um combate frontal. Então, os habitantes das bordas crescem em ambientes hostis e geram proles que assim acostumam-se, passando tal aprendizado às gerações seguintes, em um processo crescente de hostilidades que, de início internas, agora já são externas a esse grupo.
Mas como poderia ser diferente? O que a sociedade reserva de possibilidades às sua párias? A resposta é uma só: nada!
Devido à desestruturação social, à banalização da morte e à falta de valores claramente definidos, observa-se uma divisão de categorias cujos limites são tão subjetivos quanto a distinção entre "nós" e "eles". "Nós", os que moram nos bairros mais pobres e "eles", os dos bairros mais privilegiados - e, na verdade, o bairro nem precisa ser tão mais privilegiado assim; basta um mero "algo mais" (um plus, como diria Reichmann) –. Nós, os que torcem por tal time e "eles", torcedores dos outros. "Nós", os que moram neste condomínio e "eles" do conjunto ao lado. "Nós", "soldados" deste traficante e "eles" os do concorrente. Enfim, qualquer diferença, até mesmo circunstancial ou situacional, é suficiente para que ocorram cisões em grupos rivais, gerando tensões que crescem na medida em que as concorrências internas e externas aumentam.
Assim, fica fácil notar que, de modo geral, os motivos para a violência vêm de fora da escola, na maioria dos casos tendo o próprio "lar" como fonte geradora. Fácil, também, é perceber que se as relações nas escolas estão comprometidas é porque as relações sociais já estão há muito. E, se tal ocorre, é porque as afinidades familiares estão quase completamente deterioradas, não havendo mais espaço para o respeito e os limites.
Vivemos em uma sociedade doente, onde proliferam eventos de corrupção, descaso generalizado do poder público, fome e desemprego. Junte-se esses ingredientes e apresentar-se-á um quadro nefasto de desestruturação social. Desnecessário dizer, a violência só tende a crescer.
E os "civilizados", que se consideravam fora do alcance das brigas internas aos grupos periféricos, assistem, atônitos, ao crescimento explosivo daqueles conflitos que agora chegam ao seu quintal e – eis aqui o grande motivo da preocupação burguesa – até o interior de seus sobrados.
Como resultado da desmobilização social em torno deste grande câncer que é a feridade, casos violentos que outrora "resumiam-se" a assaltos a mão armada – bons tempos, aqueles... – estão "fora de moda". Atualmente mata-se simplesmente pelo prazer do abate, tanto fazendo se dentro ou fora da escola.
 
contradições - filosofia e história
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